Pular para o conteúdo principal

Como utilizar os domínios fisiológicos para a prescrição de exercício físico?

Prescrição da intensidade

Prescrever a frequência, duração e volume do treino é simples, pois esses fatores podem ser alterados pela manipulação do número de sessões na semana, duração de cada sessão e trabalho total realizado em uma janela de tempo. Entretanto, prescrever a intensidade de exercício é algo mais complexo. Uma forma de prescrever exercício aeróbio é entender de que forma a intensidade altera o equilíbrio homeostático do organismo, como consumo de oxigênio, frequência cardíaca e concentração de lactato. A partir dessa premissa, pode-se definir os domínios fisiológicos moderado, pesado e severo. 

Domínios fisiológicos de intensidade

O domínio moderado situa-se entre o repouso e a intensidade do primeiro limiar de lactato (LT1), limiar de troca respiratória (LTR) ou limiar ventilatório 1 (LV1).

O domínio pesado situa-se entre as intensidades do primeiro e segundo limiares de lactato ou entre o limiar ventilatório e o ponto de compensação respiratória (PCR).

O domínio severo situa-se entre as intensidades do segundo limiar de lactato/ ponto de compensação respiratório / máxima fase estável de lactato (MFEL) e do consumo máximo de oxigênio (VO2máx)

Esse modelo de distribuição da intensidade de treinamento é dividido então em três zonas. A zona 1 é o domínio moderado, a zona 2 é o domínio pesado e a zona 3 é o domínio severo.

Todos esses limiares são identificados por meio de um teste progressivo em esteira, bicicleta ou outro ergômetro e necessitam de um ambiente laboratorial para coletar medidas fisiológicas como lactato ou consumo de oxigênio. Como isso é inacessível para a prática profissional os estudos estimaram respostas da frequência cardíaca e da percepção subjetiva de esforço que correspondem a essas zonas para facilitar a prescrição e controle da responsta aguda ao exercício realizado em cada zona.




A partir dessa fígura é possível estimar a resposta fisiológica do praticante em cada velocidade de corrida. 

Se o praticar se exercitar em velocidades dentro do domínio moderado ou zona 1, o lactato, a frequência cardíaca e o consumo de oxigênio aumentam em relação aos níveis de repouso e se estabilizam rapidamente dentro de alguns segundos ou minutos.

No domínio pesado ou zona 2, o lactato, a frequência cardíaca e o consumo de oxigênio demoram alguns minutos para se estabilizar e não atingem seus valores máximos ou próximos do máximo.

No domínio pesado ou zona 3, o lactato, a frequência cardíaca e o consumo de oxigênio aumentam com o passar do tempo de exercício e podem atingir seus valores máximos ou próximos do máximo.

Prescrevendo treino aeróbio com base nos domínios fisiológicos

Se prescrevermos a velocidade de corrida a 9,7 km/h:

- O praticante correrá no domínio moderado ou zona 1 e consegue manter a velocidade por vários minutos ou horas

- A frequência cardíaca ficará abaixo de 80% da FCmáx

- A percepção de esforço ficará abaixo de 12 pontos na escala 6-20

Se prescrevermos a velocidade de corrida a 13,8 km/h:

- O praticante correrá no domínio pesado ou zona 2 e consegue manter a velocidade por vários minutos ou horas

- A frequência cardíaca se manterá entre 80 e 90% da FCmáx

- A percepção de esforço ficará entre 13 e 16 pontos

Se prescrevermos a velocidade de corrida a 16,5 km/h:

- O praticante correrá no domínio severo ou zona 3 e consegue manter a velocidade por alguns segundos ou minutos até entrar em fadiga.

- A frequência cardíaca aumentará rapidamente e poderá atingir a FCmáx

- A percepção de esforço ficará acima de 16 pontos.

Portanto, as zonas 1 e 2 são aplicadas para treinamentos contínuos de média e longa duração e a zona 3 para treinos intervalados, pois o praticante não consegue manter a velocidade por muito tempo.

Se não for possível realizar um teste progressivo, estime a FCmáx com a equação e calcule 80 e 90% da FCmáx para estimar as três zonas de treino. 

Monitoramento 

Durante as sessões monitore a frequência cardíaca e a percepção subjetiva de esforço para certificar-se de que o praticante está dentro da zona almejada. Anote a carga externa (velocidade) e a carga interna (FC ou PSE) para verificar as adaptações a médio e longo prazo. A tendência é que o praticante diminua a carga interna para a mesma carga externa ao longo do tempo.

Lembre-se que a frequência cardíaca sobre influência diária dependendo da hidratação, sono, temperatura ambiente e fadiga acumulada.

Eu explico mais sobre domínios fisiológicos e HIIT no curso 100% on-line sobre prescrição de exercício físico para o emagrecimento: https://go.hotmart.com/I39945248W


Prof. Dr. Leonardo De Lucca

Doutor em Ciências do Movimento Humano




Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Treinamento concorrente: Musculação e Aeróbio

Por Leonardo De Lucca, Profissional de Educação Física, Mestre e Doutor em Ciências do Movimento Humano   Treinamento concorrente: melhora da força e aptidão cardiorrespiratória O treinamento concorrente é uma estratégia eficaz para quem busca melhorar tanto a força muscular quanto a aptidão cardiorrespiratória. Na verdade, a maioria das pessoas que faz exercício físico em academias, que busca saúde e estética, realiza treinamento concorrente. No entanto, sua prescrição exige cuidados para evitar o efeito de interferência, fenômeno em que o ganho de força ou hipertrofia pode ser prejudicado pelo excesso de exercícios aeróbios.   Neste artigo, discutiremos como estruturar sessões de treinamento concorrente de forma otimizada, com exemplos práticos para diferentes situações.    O Que Diz a Ciência Sobre o Treinamento Concorrente?   Estudos mostram que combinar treinos de força e aeróbio na mesma sessão ou em dias alternados pode ser eficaz, desde que b...

Quais são as adaptações Neurais ao Treinamento de Força?

Por Leonardo De Lucca, PhD em Ciências do Movimento Humano As adaptações neurais ao treinamento de força são multifacetadas e envolvem mudanças nos níveis cortical, espinhal e periférico. Essas adaptações incluem aumento do recrutamento de unidades motoras, sincronização aprimorada, inibição neural reduzida e melhora da coordenação intermuscular. Em quanto tempo elas ocorrem? Essas mudanças ocorrem no início do processo de treinamento e são críticas para os ganhos iniciais de força antes que ocorra uma hipertrofia muscular significativa. O treinamento resistido com pesos (TRP) produz ajustes crônicos bastante conhecidos como hipertrofia muscular e melhor recrutamento neuromuscular. A magnitude dessas alterações é proporcional à manipulação das variáveis de treino como volume, intensidade, velocidade de execução e densidade. Até a década de 1980 acreditava-se que o desenvolvimento da força muscular era determinado somente pela área de secção transversa (AST). Assim, o TRP era utilizado ...

Como utilizar a repetição de reserva para prescrever o treino de força?

Por Leonardo De Lucca, PhD em Ciências do Movimento Humano  Um dos maiores desafios na prescrição de treinamento resistido (TR) para populações especiais (idosos, gestantes, portadores de doenças crônicas, reabilitação cardiopulmonar e de lesões osteomioarticulares) é determinar a intensidade adequada com segurança e eficácia.  Métodos tradicionais como a porcentagem de 1 repetição máxima (%1RM) ou treinamento baseado em velocidade (VBT) têm limitações significativas nesses contextos.  Uma alternativa promissora, respaldada por evidências recentes, é o método das Repetições em Reserva (RIR).  Vamos explorá-lo com base na revisão de Maroto-Izquierdo et al. (2025).  Por que Métodos Tradicionais Podem Falhar com Populações Especiais?   1.   %1RM: Risco: Avaliar a 1RM repetidamente é extenuante e potencialmente perigoso para indivíduos com comorbidades, instabilidade articular ou pouca tolerância ao exercício. Variabilidade: A 1RM flutua diaria...